sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Boff: não vejo quem mostre um caminho para o Brasil

Alex Ribeiro
Marcelo Montanini
Folah-PE

Sereno e solicito, o teólogo Leonardo Boff concedeu uma breve entrevista à Folha de Pernambuco e ao Blog da Folha - minutos antes do início, nesta quinta-feira (13), de uma palestra na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), na Boa Vista - sobre a atual conjuntura nacional, as perspectivas de futuro da política e das esquerdas e da candidatura do ex-prefeito João Paulo (PT) à Prefeitura do Recife, ao qual ele declarou apoio. 

Sem mencionar o nome, Boff ainda afirmou que o juiz federal Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, “recebeu a licença para estar acima da Constituição” e mostrou-se descrente com o surgimento de algum líder que possa agregar os polos de um país dividido. “Não vejo, neste momento, nenhuma pessoa com carisma capaz de levantar uma bandeira que mostre um caminho diferente para o Brasil”, declarou.

Confira a entrevista: 

Qual é a avaliação do senhor em relação aos sucessivos indiciamentos que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofreu nos últimos meses e o que PT precisa fazer para se reinventar?

A questão não é o PT, há uma ascensão no mundo inteiro da direita – na Europa, nos Estados Unidos – e eles estão tentando desmontar todo o pensamento alternativo que não seja neoliberal, capitalista... Isso é uma estratégia global do império que tem dois motes: o mundo é um império; segundo cobrir todos os espaços e não admitir nenhuma posição. A gente tem que situar dentro de uma perspectiva mais global, não ser provinciano pensando que a coisa é o PT e o Brasil. É uma estratégia mundial. O Brasil é a sétima economia do mundo, por isso é importante o equilíbrio geopolítica das forças e ele é visado por vários grupos seja da China, dos Brics, ou dos Estados Unidos. Chegamos numa situação grave porque está se criando um Estado de exceção. Um juiz (Sergio Moro) que recebeu a licença para estar acima da Constituição, isso é o pior que pode acontecer a um País porque já não há mais referência, nem políticas, nem éticas. Esse quadro é perturbador e não podemos aceitá-lo.

Como avalia as primeiras medidas do Governo Temer?

Está na lógica neoliberal de fazer rapidamente desmontando o Estado Social e colocando o ônus destas reformas no povo e deixando de fora aqueles 71.440 super ricos que não pagam impostos sobre lucros e dividendos. Eles ficam de fora, os bancos ficam de fora, e aqueles R$ 550 bilhões sonegados só no ano passado não foram buscados e trazidos para equilibrar as contas do Governo. E pior ainda, o R$ 1,5 trilhão de dívidas ativas de empresas que não pagaram (impostos) e poderiam salvar a situação do Brasil não foram mexidos, nem foi falado, nem a repatriação dos R$ 600 bilhões que estão lá fora foram tirados da pauta da Câmara dos Deputados para não serem discutido. Então, esses conjuntos de fatores mostram que a vontade de desmontar o Estado que beneficiou milhões de pessoas, e é uma reconquista da classe dominante, essa situação de privilegio que ele teve antes e eles conseguiram isso não por eleição, mas usando o Parlamento.

Diante da conjuntura do País – dividido como está – o senhor acredita que até 2018 vai surgir algum líder político que consiga agregar os dois lados – esquerda e direita – ou acredita que Lula voltará em 2018?

É difícil fazer qualquer juízo numa situação politicamente degenerada em termos éticos. Houve muita corrupção e, ao mesmo tempo, há muito ódio na sociedade e se revelou uma luta de classe, no sentindo de que aqueles milhões que ascenderam na sociedade, eles não são bem vistos pelas classes proprietárias, são vistos como ameaças. Então, a situação é tão confusa que não se sabe que figuras poderão emergir e tenham capacidade de coordenar um pouco a política para que não degenere em enfrentamento de grupos e algo conflitivo que não é indesejável. Mas eu não vejo neste momento nenhuma pessoa com carisma capaz de levantar uma bandeira que mostre um caminho diferente para o Brasil. É certo que assim como está não pode ficar. Tem que haver mudanças, reformas políticas, tributárias e até agrária de certa maneira que terrenos brasileiros possam ser vendidos, o pré-sal possa ser privatizado. Para estabelecer certas travas a voracidade neoliberal que sacrifica um País inteiro em função de grupos internacionalmente articulados e acumulam imensas fortunas. São 0,05% da população brasileira que controla 54% do PIB brasileiro, isso significa uma injustiça, não só uma desigualdade. Essa relação é conflitiva e sempre estar por debaixo da politica, porque quem tem dinheiro controla a política, compra representantes, consegue projetos vantajosos. Enquanto essas discussões não forem ressuscitadas e não tiverem outro encaminhamento estaremos num voo cego e não sabemos para onde vamos.

O que a esquerda precisa fazer para se reinventar e voltar à Presidência?

Eu acho que não se trata da esquerda. Acho que os grupos progressistas deveriam fazer uma grande frente, onde o centro seria o Brasil. Definir um caminho que seja adequado para a inclusão social e mostre outro tipo de democracia que não seja esse de tão baixa intensidade.

O Recife é a única capital do Brasil que o PT ainda tem um candidato disputando segundo turno, o João Paulo. O senhor conhece? Já manifestou apoio ao petista?

Eu conheço (João Paulo) pessoalmente. Tenho maior admiração pela administração que ele fez principalmente por dois pontos. Ele fez uma administração politica com cuidado do povo e não uma administração de coisas – atendeu a infraestrutura, contenção de morros, abriu escolas, Samu, serviço de saúde e isso é importantíssimo. Segundo, ele não só cuidou, mas tentou governar como poucos. Contato direto com o povo, especialmente, com o Orçamento Participativo e o resultado dos anos foi altamente positivo. Eu gostaria que ele vencesse, independentemente do partido, porque é um político extremamente ético e que sabe entreter um dialogo aberto, colaborativo com a população. Eu não me encontrei com ele, mas manifestei o apoio, assim como Chico Buarque e Frei Betto. Seria bom para cidade que a obra que ele começou pudesse ser levada avante e consolidada.

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