sábado, 8 de outubro de 2016

Cinemas de rua lutam para não seguirem apenas na memória

Cine Olinda tem R$ 2 milhões garantidos para reforma, mas depende da Fundarpe, Iphan e Prefeitura de Olinda para ter requalificação finalizadaFoto: Flávio Japa/Arquivo Folha

Hugo Viana
Folha de Pernambuco

Em uma das cenas de "Aquarius", filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, a personagem Clara (Sonia Braga), aponta para uma loja de móveis no Centro do Recife e diz, com saudade e tristeza, que ali era um cinema de rua (o Moderno). Enquanto o audiovisual do Estado vem alcançando uma trajetória vitoriosa, com obras como "A História da Eternidade", de Camilo Cavalcante, e "Boi Neon", de Gabriel Mascaro, as salas de cinema pernambucanas seguem um caminho oposto: o do esquecimento.
Enquanto o São Luiz, inaugurado em 1952 e tombado em 2008 como monumento histórico pelo Governo do Estado, hoje é celebrado por resistir, com arquitetura art déco e equipamento de última geração, outras salas permanecem apenas na memória. O circuito de cinema de rua perdeu, entre outros, o Pathé (primeira sala, inaugurada em 1909), o Art Palácio / Trianon (1940) e o Cine Glória (1926); locais que ampliavam o potencial intelectual do circuito e movimentavam o Centro do Recife, aumentando o fluxo de pessoas ocupando espaços urbanos.

Em outros países, como na Europa, o movimento foi semelhante. Primeiro, surgiram os complexos de cinemas. Mais recentemente, foi a vez dos multiplexes, que se instalaram em bairros nobres do Recife, em shoppings de Boa Viagem e Casa Forte. "O cinema sempre teve um papel social importante. Tirar os cinemas do Centro das cidades foi uma forma de matar os dois", disse Marin Karmitz, distribuidor romeno, em entrevista ao jornal Público. "Foi isso que aconteceu na França. O primeiro multiplex surgiu em Toulon, fora da cidade, e os cinemas no Centro fecharam. As lojas também. E o centro da cidade tornou-se um lugar sem lei, de medo, de angústia", reflete. O que também, infelizmente, também ocorre na capital pernambucana, com a decadência dos endereços para moradia no Centro e os seus "cinemas-fantasmas".

Cine Olinda, Carmo (Olinda)

Duas salas de cinema em Olinda seguem fechadas: o Cine Duarte Coelho e o Cine Olinda. Este último é um caso delicado. Inaugurado em 1911, o espaço fechou em 1965. O Governo do Estado, através da Fundarpe, avisou que tem R$ 2 milhões destinados para a reforma. "Houve uma conversa com a Prefeitura [de Olinda], que fez a sugestão de que os recursos que já existiam do Estado e estavam disponíveis para Prefeitura para o PAC das Cidades Históricas fosse destinado para concluir as obras. Então, o recurso foi transferido", detalha Márcia Souto, presidente da Fundarpe, que irá executar a requalificação. Segundo ela, falta concluir o termo de referência da licitação, apontando o que falta ser feito na obra. "A Secretaria de Patrimônio e Cultura de Olinda precisa enxugar o orçamento, para caber no orçamento da Fundarpe", explica Renata Borba, superintendente do Iphan em Pernambuco. A construtora responsável, até então, fez apenas 40% das obras, mas ocorreu um destrato.

Como forma de cobrar a reabertura do equipamento, o movimento #OcupeCineOlinda promoveu, no dia 30 de setembro, um encontro com representantes da Fundarpe, da Prefeitura de Olinda e do Iphan, além de cerca de 300 espectadores. Durante o debate, incomodados com a ausência de metas e prazos, participantes (não ligados aos organizadores) derrubaram tapumes, invadiram o lugar e passaram a ocupar a sala, onde já exibiram mais de 10 filmes, entre longas e curtas-metragens.

"A nossa primeira pauta é reabertura do cinema em no máximo um ano. A segunda é que, durante a obra, fiscalizada por um comitê popular, a gente já possa ocupar o cinema. Ele está pronto. Precisa de pouco para abrir e nós já estamos usando", diz Pethrus Tiburcio, integrante do movimento #OcupeCineOlinda. "Estamos realizando exibições, fazendo assembleias e oficinas, além de negociar com o poder público", detalha.

Cine Duarte Coelho (Varadouro, Sítio Histórico de Olinda)

Segundo a Prefeitura de Olinda, o projeto de restauração do Cine Duarte Coelho - que foi inaugurado em 1942 e encerrou suas atividades em 1980 - foi aprovado junto ao PAC das Cidades Históricas. "A gestão municipal aguarda liberação de recursos federais para realização de processo licitatório e início das obras", explicou nota da Secretaria de Comunicação de Olinda. 

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