segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Crack: devastação contínua e silenciosa

Wagner Oliveira
Diário de Pernambuco

De forma silenciosa e, às vezes, escondida, o crack segue devastando vidas. Apesar da inexistência de espaços denominados de cracolândia em Pernambuco, o uso desse tipo de droga é grande no estado. Estudo realizado pelo Departamento de Saúde Coletiva do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fiocruz Pernambuco identificou que mais da metade dos usuários de crack fazem uso do entorpecente em espaços fechados. Além disso, a pesquisa que entrevistou 1.062 pessoas no período de agosto de 2014 a agosto de 2015 identificou que mais de 30% dos usuários estão na faixa etária dos 18 aos 24 anos. Enquanto os trabalhos de repressão e investigação realizados pela polícia tentam reduzir a oferta da droga nas ruas, as ações desenvolvidas pelos governos estadual e municipal têm o objetivo de devolver a cidadania aos usuários, sobretudo aos que estão em situação de rua ou de vulnerabilidade.

A pesquisa da Fiocruz/Pernambuco além de traçar um perfil dos usuários de crack do estado, teve como objetivo proporcionar subsídios para a elaboração e monitoramento de políticas públicas voltadas para a melhoria das condições de vida e saúde dos usuários. Segundo a pesquisadora Naíde Teodósio, a maior parte dos usuários entrevistados no estudo é de homens. O público masculino ouvido na pesquisa foi de 77%. “Recife não tem cracolândias como as do Rio de Janeiro e São Paulo, com grandes concentrações de pessoas que estão vivendo naqueles pontos que também é um lugar de consumo. Aqui, as cenas de uso de crack têm números menores de pessoas e costumam ser itinerantes. Em geral, essas pessoas não vivem nos locais onde fazem uso da droga”, explicou Naíde.

Para conversar com os usuários de crack, as pesquisadoras entrevistaram pessoas que estão sendo atendidas pelo Programa Atitude, do governo estadual. “Escolhemos o Atitude por ele ser um programa regionalizado e que tem casas de acolhimento em quatro municípios, sendo três na Região Metropolitana, no caso do Recife, Cabo de Santo Agostinho e Jaboatão dos Guararapes e, no Agreste, com a unidade de Caruaru. Com o final da pesquisa, observamos que quase todas essas pessoas estão em situação de vulnerabilidade, têm baixa escolaridade, são excluídas socialmente, estão fora do mercado formal de trabalho, apresentam quebra de vínculos familiares e estão em situação de rua”, apontou Naíde Teodósio.

Ainda segundo a pesquisadora, grande parte dos usuários de crack têm filhos, mas não vivem com eles. “Muitos usuários entraram para o Programa Atitude com o objetivo de recuperar a guarda dos filhos. E nesses casos, o número de mulheres é bem maior”, destacou Naíde. Aos 37 anos, Jéssica (nome fictício) é mãe de três meninos. Usuária de crack há quatro anos, atualmente está sendo acompanhada pelo Programa Atitude. Em entrevista ao Diario, Jéssica disse que queria deixar o vício. Entre os motivos está a tentativa de recuperar os dois filhos mais novos, que estão vivendo em um abrigo. “Estou morando na rua, mas entrei na Justiça para pegar meus filhos. O mais velho de 15 anos mora com o pai, mas eu quero criar os outros de quatro e dois anos. Toda quarta-feira vou passar o dia com eles no abrigo”, revelou. A seguir, veja o que o poder público tem feito para ajudar os usuários de crack e confira depoimentos de usuários.

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