domingo, 23 de outubro de 2016

Moradores de Paulista, no Grande Recife, transformam becos da comunidade

Margarida Azevedo
JC Online

Sabe o ditado que diz “a união faz a força”? É legítimo no bairro de Arthur Lundgren I, em Paulista, Grande Recife. Cansados de ver vias da comunidade tomadas pelo lixo (não por falha na coleta municipal, mas sim por falta de educação da população), moradores arregaçaram as mangas e colocaram a mão na massa. Transformaram um rua cheia de entulhos em um local colorido e com jardim. Além de criar um novo espaço de convivência, a ação estreitou a relação entre os vizinhos, que antes se limitavam a cordiais cumprimentos de bom dia ou boa noite.

O projeto Becos de Arte foi idealizado pela estudante Adriane Morais Sales, 24 anos. Prestes a concluir a graduação em arquitetura, ela decidiu transformar o local em que vive e fazer da iniciativa seu projeto de conclusão de curso. Convidou o amigo Hugo, que chamou Ricardo, que falou para Kaline e Márcia. Veio o casal Ribeiro e Neves. De repente, eram cerca de 30 pessoas envolvidas na ação.

Em julho, durante três fins de semana, no beco que liga as Ruas Lajedo e Lagoa dos Gatos eles limparam o terreno, recolheram lixo e metralhas, fizeram canteiros com pneus, plantaram, pintaram os muros. As paredes ganharam grafites feitos por artistas convidados. Tintas, pneus e outros materiais foram doados por pequenos comerciantes do bairro. A mudança foi significativa.

“Antes eu tinha vergonha da minha rua quando recebia uma visita por causa do lixo. Agora está ótimo, vem até gente de outras vias só para tirar foto”, comemora a dona de casa Nilda Gomes, 69. Ela mora na casa que fica na esquina do beco. É da sua residência que sai uma das mangueiras com água para regar as plantas.

Inicialmente foram plantadas apenas espécies ornamentais (espada de São Jorge, palmeira ráfia, ixora, pleomele, entre outras). O objetivo é repetir a intervenção em outros seis becos. Uma das possibilidades é criar hortas comunitárias. Outra ideia é limitar essas vias à passagem apenas de pedestres.

A segunda ação do grupo aconteceu ontem no beco que fica entre as Ruas Lagoa dos Gatos e Limoeiro. Todos que trabalham são voluntários. Começaram com a limpeza. No próximo fim de semana continuarão o mutirão e convidam outras pessoas para participar da ação.

“A cidade é onde a gente vive. Sempre me incomodei com a sujeira desses becos. Conversando com Hugo, decidimos convidar as pessoas para agirem e deu certo”, comenta Adriane. O plano é mexer também nas Praças União (que fica o terminal de ônibus) e São Jorge.

As propostas para esses logradouros são ordenamento do comércio, academia da cidade, quadra e pista de cooper. “Em relação às praças dependemos da prefeitura. Porque são sugestões nossas”, diz Adriane, que pensa em sugerir ainda a adequação das calçadas.

O projeto Becos de Arte também incentivará escolas do bairro a usar esses locais para educação ambiental. Outra ideia é organizar feirinhas e atividades culturais. No Dia das Crianças houve uma festa para a garotada. “Vamos continuar com ações regulares. A festa foi ótima. Ocupamos coletivamente um espaço do nosso bairro”, destaca Adriane.
HOMENAGEM

O primeiro beco ganhou o nome de Regi, em homenagem a um antigo morador da Rua Lajedo, Reginaldo, falecido em 2013. A escolha do nome foi feita democraticamente. Viúva do homenageado, Edileusa Cunha, 62, abraçou o projeto. E faz questão de todos os dias reservar um tempinho para cuidar das plantas do Beco Regi. “Chegamos em Arthur Lundgren 30 anos atrás, fomos um dos fundadores da vila. Meu marido tirou muito jovem do mundo das drogas com um projeto de futebol. Fiquei muito feliz com a homenagem”, afirma Edileusa.

“Não foi só o beco que mudou. O contato com a vizinhança também. Estou mais próxima, por exemplo, de vizinhos que moram na mesma rua que eu há dez anos e que nunca tínhamos conversado”, comemora Edileusa, referindo-se ao casal Ribeiro e Neves.

“Queremos homenagear pessoas do nosso bairro. Não só aquelas que já morreram, mas também quem continua sendo importante para a comunidade”, explica Hugo Ricardo. Grafiteiro, foi ele quem convidou outros colegas de arte para colorir os muros. “Quanto mais envolvermos pessoas do bairro, melhor”, enfatiza.

Parece que está dando certo. Não bastassem os encontros diários para cuidar das plantas, o grupo já organizou um churrasco para entrosar mais os participantes. E não será surpresa se um dos becos virar palco para comemoração conjunta do Natal ou do Ano Novo. Já tem vizinho pensando nisso.

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