sábado, 8 de outubro de 2016

Temer dá banquete no Alvorada, enquanto milhões de brasileiros passam fome

Jorge Béja

Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, Betinho….olhem só o que está acontecendo aqui, nesta terra que já foi Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, e depois passou a se chamar Brasil! Neste domingo (9), o presidente da República vai abrir as portas de um dos palácios que ao povo pertence — o da Alvorada — para dar um jantar para 400 convidados! Mas os convidados não somos nós, gente do povo. São deputados, senadores, a alta direção do Banco Central, a advogada-geral da União, Grace Mendonça e muita gente mais, porque poucos irão sozinhos. Farranchos e farranchos vão juntos com eles.

Vai ser um banquete no melhor estilo burguês. E perdulário, porque tudo é pago com o dinheiro do povo. Por baixo, por baixo, estima-se que com comidas e bebidas sejam gastos mais de 300 mil reais. O presidente, que se chama Michel Temer, diz que precisa convencer os parlamentares a votarem, no dia seguinte, segunda-feira (10), o Projeto de Emenda à Constituição nº 241, que congela por vinte anos investimentos em serviços públicos essenciais. Daí o motivo desse jantar no palácio, que é presidencial mas que — é importante repetir — ao povo brasileiro pertence.

DESESPERANÇA – Já não fosse o projeto uma desesperança para os brasileiros e para este Brasil tão esculhambado e tão saqueado, o pior é o ambiente, o clima, a atmosfera, a ocasião em que o projeto vai ser tratado.

Ora, senhor Michel Temer, faça o favor de ter pelo menos pudor e respeito para com o povo brasileiro. Se o senhor pretende fazer a cabeça de deputados e senadores para que aprovem seu projeto, então que faça reuniões com eles durante a semana. Ou mesmo num dia de domingo. Mas jamais num almoço ou jantar.

Reúna-se com eles em um dos muitos auditórios que existem em Brasília. Lá no prédio da Anatel, por exemplo e entre muitos outros, tem um auditório enorme. São 800 poltronas em plano inclinado. E tem um imenso palco onde adormece e apodrece um imponente Stenway & Sons, preto e de cauda inteira e que custa no mínimo 250 mil dólares, por ser o melhor piano do mundo e o preferido por onze entre dez pianistas-concertistas.

O HAITI É AQUI – O senhor não sente vergonha e dar um banquete com o dinheiro do povo, sabendo que 20 milhões de brasileiros vivem na extrema pobreza?; que outros 65 milhões não ingerem a quantidade mínima diária de calorias e por isso se alimentam de forma precária?; que 15 milhões de crianças são desnutridas?; que 12 milhões estão desempregados e, sem emprego e sem dinheiro, quando conseguem um prato de comida, já conseguem muito?.

O senhor não sente vergonha pela população do Haiti que não tem o que comer. São 10 milhões de famintos. E não venha dizer que isso não é problema seu, mas do governo e do povo haitianos. Não, senhor Michel Temer, o problema é nosso também. É de toda a humanidade. Basta que uma pessoa passe fome, esteja ela onde estiver, no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo, que por esta pessoa todos somos responsáveis. Porque neste planeta Terra, nós, os humanos, formamos um só tecido social.

E a lei natural e que prevalece é esta: todos por um e um por todos.

DIREITOS HUMANOS – Se o senhor não conhece ou se esqueceu, aqui vai escrito o artigo XXV da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que o Brasil também subscreveu:

“Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle”.

Sinta vergonha, senhor Michel Temer. Desnude-se desta condição de burguês, caia na realidade e pare com essa prática condenável — um vício, aliás –, que é fazer cortesia com o chapéu dos outros. Neste domingo (9), não será o primeiro jantar que o senhor oferece. Recentemente já houve um outro, com a presença de 24 ministros, presidentes da Câmara e do Senado, líderes de bancadas, etc., etc.

EM CLIMA DE FESTA? – E mais: não se pode aceitar nem muito menos compreender como é que assuntos tão relevantes para o destino do país possam ser debatidos e discutidos num juntar, onde se bebe, se embriaga, se come, se mastiga, se arrota, vira e mexe se vai ao banheiro fazer “xixi”….e quase sempre até os tidos como “pessoas sérias” geralmente perdem a linha. Jantar é para confraternização, celebração, comemoração do que foi feito ou conseguido realizar de bom e justo. Jantar é festa.

Saiba o senhor, presidente Michel Temer, que o Papa Francisco toma o café da manhã, almoça e janta no refeitório dos padres que residem no Vaticano. É um grande salão, com mesas compridas e cadeiras de um lado e do outro. Cada conviva senta-se numa simples cadeira e fica face a face com o outro à sua frente. Eles próprios — inclusive Francisco — se levantam e vão até o “buffet” se servir das iguarias e retornam à mesa. É “self-service”.

ADVERTÊNCIA – Espera-se que alguém de bom-senso, com visão social, que conheça a realidade deste nosso Brasil e tenha os pés no chão diga ao senhor para suspender esse jantar de domingo. Ou que o banque às suas custas num restaurante de Brasília. Mas se o jantar acontecer mesmo no Alvorada, que seja ele o último gesto despudorado que o senhor, que mal se sentou na cadeira de presidente da República, já se jactou a cometer. Pela segunda, ou terceira vez. Mas que seja a última.

Para terminar, uma advertência: esses jantares são tão despropositais e indecentes que não apenas representam gastos desnecessários ao erário nacional como também ferem a moralidade administrativa. E o servidor público que não poupa o dinheiro público e fere a moralidade administrativa fica sujeito a ser réu em Ação Popular para repor aos cofres públicos o gasto que teve com o supérfluo.

Nenhum comentário :

Postar um comentário