domingo, 6 de novembro de 2016

“Fábricas de ar” em falta no Recife

Priscilla Costa
Folha-PE

Uma árvore de porte médio é capaz de transpirar o equivalente a 60 litros de água por dia. A umidade escapa pelas folhas e mistura-se às partículas de poeira do ambiente. Tornam-se cada vez mais pesadas e caem ao chão. Assim, elas poderiam refrescar a temperatura do Recife entre 2 e 8ºC e deixar o ar da Cidade mais limpo. Poderiam. Uma pesquisa da maior organização de conservação ambiental do mundo, The Nature Conservancy (TNC), constatou que a Capital pernambucana é uma das dez piores cidades da América Latina na relação entre árvores e partículas de poluição. Há 250 mil árvores em todo o território recifense, em contrapartida à população de 1,6 milhão. Num cenário ideal, o número de pessoas e de árvores, no mínimo, é equivalente.

O estudo “Plantando Ar Puro” avaliou os lugares nos quais um investimento em árvores pode trazer maior impacto à vida das pessoas. “Quanto maior é a população ocupacional e menor é a cobertura vegetal, teremos mais ilhas de calor. O Recife precisa equilibrar essa balança para melhorar a qualidade do ar e registrar menos doenças cardiorrespiratórias. Hoje, plantar uma árvore é questão de saúde”, analisou o vice-diretor de Conservação para a América Latina da TNC, Fernando Veiga. Anualmente são registrados no mundo mais de três milhões de mortes por efeitos do material particulado fino, resultantes da queima de combustíveis fósseis e poeira. Para além da liberação trivial da Cidade, um tanque de óleo mineral da Chesf explodiu neste ano em San Martin, na Zona Oeste do Recife, liberando mais de uma tonelada de substâncias nocivas entre gases de efeito estufa e gases cancerígenos na atmosfera. A fuligem cobriu grande parte do bairro.

“As árvores podem remover até um quarto desse material particulado e, plantadas no lugar correto, funcionam como uma barreira muito eficaz que filtra o ar sujo e protege a população local. Um exemplar de porte médio resfria tanto quanto quatro condicionadores de ar. O teor de partículas de poeira em ruas arborizadas é de apenas 25% em relação às não arborizadas”, aprofundou Veiga. A plantação de árvores, principal objetivo do estudo da TNC, pode ter um efeito inicial extra. Isso porque, ao se desenvolver, a árvore necessita do dobro de CO2 para o processo de fotossíntese. “É como um adolescente que precisa comer bem para ter energia. E ainda libera oxigênio puro para a gente. Se cortada ou queimada, ela libera todo o gás carbônico absorvido”, explica o biólogo Nelson Noveli.

Noveli critica ainda as erradicações frequentes feitas pela gestão municipal e a falta de cuidado com as árvores. Em 2015, Recife recebeu o título de quinta cidade mais verde do mundo, título amplamente divulgado. Contudo, a navegabilidade do Capibaribe e os tetos verdes, dois dos três principais motivos para o alto número no ranking, são ainda uma promessa. O incentivo do uso da bicicleta, outra razão para a nota, também sofre críticas por ser recreativo em vez de substituir os carros. A meta do Plano Cicloviário da RMR previa a primeira etapa das ciclovias entregues no ano passado, o que não ocorreu.

Solicite uma árvore
A Sementeira Municipal, em Casa Amarela, espaço de dois hectares administrado pela Emlurb, tem como finalidade a produção e semeadura de mudas destinadas à arborização urbana. Por mês, até cinco mil mudas são produzidas. São 120 tipos de plantas, entre exóticas e nativas, como ipê, acácia e flamboyanzinho. O plantio de uma delas pode ser solicitada por qualquer cidadão por meio do número 156. “Após o pedido, um técnico vai até o local para avaliar a área. A presença de fios elétricos e largura da calçada definem a espécie”, detalha o engenheiro agronômo da Emlurb Fernando Bivar. “Mas educação ambiental é realidade muito distante das pessoas. As pessoas dizem que as folhas vão sujar a calçada.

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