domingo, 27 de novembro de 2016

Os efeitos de um crime ambiental em Porto de Galinhas

Irregularidades e obra da Arena PortoFoto: Jedson Nobre/Folha de Pernambuco

Pricilla Costa
Folha-PE

Os maquinários estão parados desde que a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) embargou as obras da Arena Porto. As irregularidades encontradas durante fiscalização do órgão somaram uma multa de R$ 600 mil - valor que chega a ser irrisório diante do “assassinato ambiental” cometido no lugar, conforme criticam especialistas. 

O empreendimento está sendo levantado na margem direita da PE-09, a 2 km de Porto de Galinhas, em Ipojuca. A construção, que segue os moldes de um centro de convenções, devastou três hectares de vegetação nativa dos 15 hectares que o estabelecimento ocupa.

A situação se torna ainda mais preocupante visto que a construção - que prevê uma casa de shows com capacidade para 12 mil pessoas e um estacionamento para três mil carros - está sob uma área de alagados que alimenta o mangue da região. A Folha de Pernambuco foi ao local verificar os rastros de prejuízos deixados pelas máquinas. 

Peixes mortos sufocados pelo óleo diesel despejado nas águas, queimadas e derrubadas de árvores. A lista é imensa. Por outro lado, a Luan Promoções e Eventos Ltda. pretende dar continuidade às obras sob a justificativa de que um centro de convenções na localidade irá contribuir com o desenvolvimento do município e movimentar a economia e turismo da região.

Mas, até o momento, a CPRH não recebeu nenhum EIA/Rima e plano de recuperação das áreas degradadas para que o projeto seja redescutido e o corpo técnico do órgão possa decidir se vai ou não conceder nova licença ambiental. Um imbróglio sem prazo para ter fim.

Em vez de água, óleo diesel
No local, o descarte de óleo diesel dos maquinários nas áreas alagadas só evidencia, para ambientalistas, que não houve qualificação técnica para os profissionais que operam o licenciamento municipal. Muito pelo contrário. Um parecer técnico recente de um engenheiro ambiental da Secretaria de Meio Ambiente de Ipojuca afirma que a construção da Arena Porto “está dentro dos parâmetros legais” sem nem levar em conta o impacto que um empreendimento com o porte desta arena iria causar.

Resultado: por todo o curso d’água é comum ver peixes mortos espalhados. Sem oxigênio devido à substância oleosa - vale salientar, altamente nociva por ser derivada de petróleo - não resistiram. O cenário, inclusive, afeta quem vive da pescaria. Deyvson Félix, 21 anos, é um prejudicados. “Antes dessa arena aterrar tudo, tínhamos tilápia, camurim, carapeba e sardinha. Tudo em boa quantidade. Agora jogo a rede e vem peixe morto, todo ensebado de óleo. Esse povo acha que por que tem dinheiro, pode passar por cima de tudo, até do meio ambiente”, critica.

Eram 521 coqueiros, mangue e restinga
Esse foi o quantitativo de coqueiros derrubados, além da supressão de mangue e restinga - desta última sobraram pequenas manchas verdes para dizer que ali havia, sim, Mata Atlântica, contestando a versão da gestão municipal. No lugar restam apenas tocos de coqueiro e toras amontoadas.

Inclusive os cernes (parte interior do tronco) estão em tons alaranjados denunciando o quanto recente foram os cortes. E ali, onde havia vegetação, restam apenas rastros da queimada. “Ao queimar foram retirados os nutrientes do solo, que empobreceu. Se não houver nenhum replantio, daqui que a natureza se regenere, ao seu ritmo vai levar anos, até décadas. Além do que cortar árvores só contribui ainda mais à desertificação e ao aquecimento, pois você está liberando na atmosfera todo o gás carbônico preso nessas plantas”, lamenta o biólogo Nelson Noveli.

Restou lixo e brita
Em meio ao barro, latas, copos descartáveis, restos de embalagem, garrafas pet, restos de material de construção. Maquinários parados. O cenário é esse desde o dia em que as obras foram embargadas pela CPRH, há pouco mais de duas semanas. Moradores especulam se a Arena Porto vai ser de fato erguida. Opiniões em relação ao empreendimento se dividem.

“Porto de Galinhas virou bagunça. Não tem necessidade uma casa de shows aqui. Só para perturbar o sossego da gente e marginalizar um paraíso desse. Lamentável”, reclama o morador Jovelino Batista, 52. Para o comerciante Sidinei Izolan, 39, o empreendimento vai gerar emprego e fomentar o turismo: “Estou na torcida. Vai trazer mais pessoas, movimentar a economia, o turismo. Não achei má ideia termos um centro de convenções.”

Curso do alagado interrompido pelo barro
Como se não bastasse sofrer com toda a carga de óleo, o barro usado para terraplanar o território ainda interrompeu o curso do alagado que alimenta o mangue da área, além de ter assoreado vários trechos. Na avaliação do professor de biologia da Universidade de Pernambuco (UPE) e especialista em manguezais, Clemente Coelho, deveria se fazer um redesenho do projeto. “Ali é área de alagado que alimenta o mangue e a restinga e foi tudo aterrado com barro. Era para retirá-lo e fazer a recuperação da área por meio de replantio. O guaiamum, por exemplo, está em perigo crítico de extinção e, assim como outras vidas, é vítima de todo esse processo”, analisa. O espaço que está sendo destinado para estacionamento foi todo construído em cima das áreas alagadas afetando diretamente os ecossistemas.

Pelo lugar, marcas de protesto
O incômodo de ter um centro de convenções no município está estampado em detalhes. Um outdoor próximo ao local onde o empreendimento está sendo erguido traz em letras garrafais: “Salve o mar, salve o mangue. Porto não precisa de arena”. Na próxima quarta-feira, quando será realizada uma audiência do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) no município, uma grande quantidade de pessoas promete fazer um movimento na intenção de barrar a continuidade das obras, caso a CPRH conceda uma nova licença ambiental.

O movimento, nascido no Facebook por meio da página Fora, Arena Porto, já ultrapassa 11 mil compartilhamentos. “Está na hora de reavaliar se é prioridade ter uma casa de shows em Porto de Galinhas ou uma cidade saneada, acessível e que, acima de tudo, preserve sua paisagem natural”, contesta o diretor-presidente do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), Severino Ribeiro.

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