terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Clóvis Cavalcanti: Para enfrentar a desordem crescente de Olinda

Diário de Pernambuco

Sei que a aparência de caos em que corre a vida do país não é exclusiva de Olinda, a minha cidade. Por toda parte, o quadro se reproduz com enorme semelhança. Algo de maligno está acontecendo que aumenta a insegurança, promove a violência (no trânsito, por exemplo, ninguém respeita nada), torna as pessoas grosseiras, diminui o grau de educação no trato, leva a maior sujeira e pichação em toda parte, oferece uma imagem de decadência generalizada. Isso tudo é a antítese do progresso, a negação do desenvolvimento que os governos afirmam constituir seu compromisso maior (embora, na prática, mostrem que o que interessa mesmo é fazer crescer a economia, o PIB).

Olinda poderia ser uma vitrine do discurso da melhoria social e econômica que a população gostaria de ver acontecer. Não é. Comparando a cidade com o que acontecia nela em 1982, quando a Unesco lhe conferiu o (merecido) galardão de Patrimônio da Humanidade, não há como evitar a conclusão de que a ela piorou muito. Moro numa rua de passagem obrigatória dos turistas que visitam Olinda. São hoje mais comuns os assaltos que nela acontecem, como o de uma argentina jovem na última segunda-feira. Bem junto de minha casa, esta própria vítima de ladrões que entraram pelo telhado no amanhecer do dia 2 de janeiro último (Vera e eu estávamos em Gravatá). Nas redondezas, esse tipo de roubo é frequente, o que tem levado a fuga de moradores. Basta dar um passeio pelo Sítio Histórico para ver a quantidade de casas fechadas e que ostentam placas de “Vende-se”.

Se a solução para essa crise de insegurança, grosseria, sujeira, destruição do patrimônio, etc. requer um ataque de âmbito mais extenso, envolvendo políticas nacionais, por um lado, não se pode ficar parado, por outro, esperando que as coisas aconteçam, vindo de cima. É o caso de cobrar das novas autoridades municipais, ações que tornem o lugar onde vivemos algo que realmente valha um mínimo a pena. Em Olinda, instalou-se uma administração que parece ser menos desvairada do que a que empalmou o governo municipal durante 16 anos, descendo ladeira abaixo em termos de competência, sobretudo nos últimos dez anos.

A cidade pede ações urgentes que promovam a sensação de pertencimento e de integração nas comunidades que se empobrecem cada vez mais no anel de miséria que cerca o Sítio Histórico. Educação, artesanato (Olinda sempre teve bons artesãos), cultura de modo geral, esportes, atenção à criança, atendimento à saúde, combate às drogas, proteção ao cidadão – essas são coisas de que a prefeitura pode assumir um mínimo para conferir mais sentido e contentamento à vida olindense. Um lugar com os atrativos que Olinda possui, oferece enorme potencial para a criação de empregos relacionados ao turismo. Isso requer um ataque forte no plano da educação. Moro defronte a um hotel – o 7 Colinas –, bem concebido e administrado, que mostra como coisas sólidas cabem em Olinda, podendo servir para que a economia da cidade prospere. Nesse sentido, proteger seu patrimônio histórico, preservar a cultura local, garantir que a festa de carnaval olindense não vai abandonar as características que a tornam inconfundível (urinar nas vias públicas não é componente dessa tradição. É algo a coibir), são medidas que podem melhorar a qualidade de vida dos que tanto apreciam e vêm ver o que a Marim dos Caetés sempre exibiu. Está nas mãos de Lupércio Carlos do Nascimento, o novo prefeito, pôr em prática um compromisso nessa esfera.

Clóvis Cavalcanti é presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

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