segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Máscara Negra um sucesso do Carnaval que chega aos 50 anos

Zé Keti, sucessos e atribulações
foto: reprodução

José Teles
JC Online

Em 1966, o compositor Zé Keti inscreveu 16 músicas no I Festival Internacional da Canção, apenas três em parceria. Nenhuma foi classificada. Um momento emblemático da música brasileira. Quase todos os artistas da velha guarda foram desclassificados. Não se poupou nem Pixinguinha, que mandou três composições, em parceria com o cronista Rubem Braga. A comissão julgadora não se agradou também das músicas de Ismael Silva, um dos país do samba, nem das de Nelson Sargento.

Zé Keti botou a boca no trombone, acusou a curadoria de discriminar os sambistas. A desclassificação virou polêmica, e que acabou virando musical. Os Desclassificados, dirigido por Péricles do Amaral, que reuniu Zé Keti, Nana Caymmi, Ismael Silva, Nelson Sargento, o grupo A Voz do Morro e o Trio 3D, e Thaís do Amaral (filha dele), num espetáculo levado à cena no teatro Miguel Lemos. No repertório, claro, havia várias das canções não aprovadas pela comissão do FIC. 

Entre o fornido pacote de canções que Zé Keti inscreveu no festival, uma marcha-rancho se destacaria, faria sucesso, suscitaria polêmica e uma batalha judicial. A música, no entanto, era tão bem construída, que driblou todos os obstáculos e chega aos 50 anos, como um clássico da MPB, e um dos maiores sucessos do Carnaval Brasileiro em todos os tempos. Qualquer que seja o seu gosto musical, são raros os brasileiros que não a identificam ao ouvir os primeiros versos: “Tanto riso/ó, quanta alegria/mais de mil palhaços no salão”.

A música é Máscara Negra, claro, de Zé Keti e Pereira Matos. Lançada em disco, em outubro, em dezembro de 1966, a música já era uma das mais tocadas no rádio, na voz de Dalva de Oliveira. Ironicamente, como lado A, do compacto que trazia na outra face, Porta-Estandarte, marcha rancho de Geraldo Vandré e Fernando Lona, vencedora do II Festival da MPB promovido pela TV Excelsior, em 1966.


Máscara Negra, com Zé Keti, foi lançada pelo selo Mocambo, da Rozenblit, em janeiro de 1967.Teve esgotada a tiragem inicial de dez mil cópias, e tocava, em média, 25 vezes por dia nas emissoras recifenses. Geralmente reticente em dar ênfase às músicas carnavalescas “estrangeiras”, o maestro Nelson Ferreira passou a executar Máscara Negra, mas em andamento de frevo de bloco. Um sucesso que crescia no compasso de uma bola de neve, e que teve uma tragédia no caminho. Ainda em dezembro, quando despontava como a preferida do público.

No dia 19 daquele mês, o compositor Hildebrando Pereira Matos (sobrinho do pernambucano Hilário Jovino, fundador do primeiro rancho carnavalesco carioca), parceiro em Máscara Negra sofreu um infarto fulminante. Tinha 60 anos, e cerca de 50 músicas gravadas, que nunca lhe deram muito dinheiro. Ia ganhar uma bolada pela primeira vez com Máscara Negra.

Já um um autor consagrado, porém sem nenhum sucesso comercial à altura de Máscara Negra, Zé Keti foi convidado para gravar um depoimento para o Museu da Imagem e do Som, no Rio. Durante a conversa revelou que a música foi composta inteiramente ele, que cedeu a parceria a Pereira Matos. Detalhou a gênese de Máscara Negra. Em setembro de 1964, ele conversava com um amigo na Rua Uruguaiana, no Centro do Rio, quando lhe bateu a inspiração:

“Pedi licença, para entrar num bar. à guisa de ir ao reservado, e tomando de um pedaço de papel e um toco de lápis, e comecei a escrever e a cantar baixinho. A música e a letra vieram num estalo. Porém não foi a Máscara Negra completa, mas apenas a segunda parte”. Ele contou que três dias mais tarde foi na Sbacem (sociedade de direito autorais), e conversou com o também compositor Haroldo Lobo, que lhe sugeriu a primeira parte em ritmo de samba. 

LADRÃO
Somente dois anos mais tarde quando foram abertas as inscrições para o festival da canção, Zé Keti diz que, ruim de dinheiro na época, decidiu arriscar inscrevendo-se no concurso. Procurou Pereira Matos, porque este pertencia aos quadros da Sbacem e tinha influência no meio musical. Matos gostou da primeira parte da música, e Zé Keti aprontou a segunda e a inscreveu dando co-autoria a ele, achando que o artifício o ajudaria a classificar a música. Não ajudou. Mas ele acreditava nela. Gravou a marcha-rancho, mandou copiar vários acetatos, que foram distribuídos para disc-jockeys das principais emissoras do Rio.

Zé Keti, de repente, denunciou aos jornais que estava recebendo ameaças, e xingamentos de “ladrão” por parte dos parentes do falecido, que o acusavam de estar enbolsando sozinho os direitos autorais de Máscara Negra. Não apenas sendo acusado de desonesto, como também de ignorante, por ter trocado os papéis de Arlequim e Pierrô, nos versos “Arlequim está chorando pelo amor da Colombina/no meio da multidão”.

Estes dois personagens, que vêm da Comedia Dell Arte italiana, corrigia a crítica, disputam a Colombina, mas quem leva a melhor é o debochado Arlequim, e quem chora é o desditado e apaixonado Pierrô. Zé Kéti mandou uma resposta abusada aos que o criticavam: “A música é minha e eu faço o arlequim chorar e ficar apaixonado quando bem entender”.

Nascido José Flores de Jesus, em 16 de setembro de 1921 (faleceu em 14 de novembro de 1999) o “Keti”, é uma derivação de “quieto”, porque foi, segundo depoimento dele, um garoto muito sonso. Teve infância pobre, a mãe era empregada doméstica, o pai morreu num hospício. Foi o padrasto que lhe presenteou com o primeiro instrumento, um flautim. Ele teve a primeira música gravada, em 1946, pelos Vocalista Tropicais (Tenho Que Ensinar Português ao Tio Sam, com Felisberto Martins).

Em 1964, virou autor de protesto, ao participar, com Nara Leão (depois Maria Bethânia) e João do Vale, do musical Opinião (com cinco composições suas no repertório), cujo título vem de um samba de Zé Keti: “Podem me prender/podem me bater/que eu não mudo de opinião, são os versos iniciais que, até são contestatórios, mas a música na verdade é de conformismo, já na segunda estrofe: “Daqui do morro/eu não saio não/Se não tem água/eu cavo um poço/se não tem carne/ eu compro um osso/ faço uma sopa e deixo andar”.

“Minha vida sempre foi enrolada e cheia de atribulações”, confessou Zé Keti no depoimento ao MIS. Máscara Negra daria sequência às atribulações. Num programa de TV a viúva de Deusdedith Pereira Matos, irmão de Hidelbrando Pereira Matos, co-autor, pelo oficialmente, de Máscara Negra, afirmou que a música nem tinha sido feita por Zé Keti, nem pelo parceiro, e sim pelo marido dela, falecido em julho de 1966, e também compositor de sambas, relativamente bem-sucedido.

A música teria sido furtada por Hildebrando, enquanto Deusdedith convalescia num quarto de hospital. A viúva garantiu que ouviu o marido cantar a música várias vezes em 1965, ano em que a criou. O cantor Ary Cordovil confirmou que Máscara Negra era do falecido Deusdedith, que a trouxe para que ele gravasse. Ele não mostrou interesse porque já havia gravado o samba Tristeza (Haroldo Lobo/Niltinho Tristeza), o outro grande sucesso do carnaval daquele ano.

Foi um imbróglio demorado, com acusações de ambas as partes. Como se não bastasse, ainda teve quem achasse que Máscara Negra era plágio de Everybody Loves Somebody (Irving Taylor/Ken Lane), gravada por Frank Sinatra em 1948 (e são realmente parecidas). No Recife, o compositor de frevos Gildo Moreno foi aos jornais reclamar do uso de Máscara Negra como tema do Baile Municipal de 1967.

Zé Keti desviou-se destas atribulações todas, ganhou o prêmio de melhor música do Carnaval carioca. No ano seguinte levantaria o bicampeonato com Amor de Carnaval. Máscara Negra, gravada pela pernambucana Rozenblit, acabou pernambucanizada, e hoje integra o repertório dos chamados blocos líricos.

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