segunda-feira, 6 de março de 2017

Recife sofre com o barulho, uma praga moderna

Esquina da Imperatriz com a Aurora, na Boa Vista, é um dos pontos mais ruidosos do Recife. Frequentadores regulares já trazem sinais de perda auditiva. Média de mais de 80dB tem impactos negativos na saúde
Foto: Divulgação

Paulo Trigueiro
Folha de Pernambuco

O barulho de grandes cidades como o Recife já é considerado uma praga da modernidade. Uma combinação de irritantes passagens de caminhões do lixo, acionamentos de alarmes de portões automáticos e sirenes que levam a perda de audição, hipertensão, distúrbios do sono e até impactam a saúde mental de quem está exposto. O ruído se intensificou até o ponto descoberto por pesquisa recente da UFPE: 89 dos 94 bairros da Capital são barulhentos acima do limite aceitável pela ABNT. Mas o ruído não é novo por aqui. De maneira abrupta, chegou em Pernambuco há muito tempo, ainda no século 16...
Os portugueses trouxeram em caravelas toda tecnologia que ressonava na Europa. O toque do martelo no cobre, os sinos das igrejas, as engrenagens, a roda. Tudo foi surgindo aos poucos no velho continente e trazido para o litoral pernambucano de uma vez. “No mundo, o barulho se tornou um problema há mais de 5 mil anos, com a construção das primeiras cidades”, explicou o autor do livro a História do Barulho, Mike Goldsmith, chefe do Departamento de Acústica do Laboratório Nacional de Física da Inglaterra por 20 anos. Com a colonização, o Estado passou a importar fontes de ruído, o que lhe permitiu, com certo atraso, acompanhar a tendência mundial. 

“Um marco seguinte foi a revolução industrial. Primeiro pela criação do motor a vapor e pelas ferrovias, duas fontes de ruído extremamente significantes. Mas também porque muitas pessoas se mudaram para a cidade grande.” Essas ferrovias foram responsáveis por levar o ruído ao interior pernambucano. A primeira linha sendo inaugurada em 1858, entre Recife e o Cabo de Santo Agostinho, na RMR. Pouco depois, todas as regiões do Estado já tinham inaugurado estações.
Outros exemplos do seguimento - com atraso - às tendências mundiais são o automóvel e o avião. O primeiro carro chegou de navio ao Porto do Recife entre 1920, como registra uma foto no Museu do Recife. Mas o primeiro carro a gasolina já tinha sido construído em 1893 em Massachusetts. Um modelo movido a gás foi criado ainda no século 17. Quase cem anos depois, a RMR tem uma frota flutuante de cerca de um milhão de veículos diários.

O avião teve o primeiro voo comercial em 1914, no percurso entre duas cidades da Flórida, nos Estados Unidos. Mas ele só passou a visitar o Recife com frequência em 1936. O Jahu, uma aeronave JU-52 pilotada pelo pernambucano de Palmares Severiano Lins, fazia escalas na Cidade no caminho entre o Rio de Janeiro e Belém. “Ele descia na Bacia do Pina, na água mesmo. Era um hidroavião. Antes disso, o céu do Recife já havia visto algumas revoadas”, explica Fernando Lins, filho do aviador pioneiro. Atualmente, o Jahu está em exposição no museu da empresa aérea TAM, em São Carlos, no estado de São Paulo, e quase 70 mil voos são operados anualmente no Aeroporto Internacional do Recife.

Desses ruídos que a evolução trouxe à Capital, foi o doutor em arquitetura e urbanismo Ruskin Freitas, do Laboratório de Conforto do Ambiente da UFPE, quem fez um “catálogo”.

A esquina da rua Imperatriz com a Aurora, na Boa Vista, é um dos pontos mais barulhentos do Recife, de acordo com a análise do especialista. Ali, tudo acontece ao mesmo tempo agora. Ambulantes gritam e batem palmas; caixas amplificadas tocam músicas pouco ou nada compreensíveis; condutores socam as buzinas de seus veículos para se queixarem aos pedestres que atravessam; bicicletas de som anunciam algum produto que a poucos interessa. A consequência do caos é medida em decibéis. Mais precisamente em uma média de emissão de sons 35% mais alta que a recomendada pela Associação Brasileira de Normas e Técnicas ABNT.
Almir Gustavo, vendedor de uma loja de roupas na Imperatriz, grita a plenos pulmões as promoções do estabelecimento. “Já fiquei rouco de tanto gritar. Acontece. E quanto ao barulho geral, já estou acostumado”, relatou. Não sentir o desconforto, contudo, é justamente um dos sinais de que ele apresenta alguma perda auditiva. De acordo com o otorrinolaringologista do Hospital das Clínicas Fábio Coelho, é sinal da exposição aos ruídos acima de 80 decibéis. Para se ter uma ideia, a esquina tem uma média de 81,25dB, com picos que ultrapassam os 90dB. “Primeiro vem o estresse, que acaba trazendo uma série de outros problemas de saúde, como distúrbios do sono.”

A sete quilômetros dali, na Mascarenhas de Moraes, na Imbiribeira, Valmir Souza trabalha no próprio fiteiro. Há 45 anos, acompanha o aumento dos ruídos urbanos e seus efeitos na sua qualidade de vida. Pela via passam 56 mil carros diariamente, de acordo com a CTTU. “Antigamente eram menos e o barulho era menor. Quando chego em casa, no silêncio, é que percebo o quanto essa avenida é barulhenta”, conta. Realmente. 

Num trecho próximo à esquina com a rua Missionário Joel Carlson, a média de ruídos registrada pelo Lacam foi de 82,34dB. “É a maior até agora. Estamos realizando um aprofundamento do mapeamento acústico da Cidade. Já conhecemos bem vários pontos de emissão, mas agora estamos compreendendo a acústica dos bairros como um todo. 

Porque podemos dizer que a Mascarenhas de Moraes é o local mais barulhento, mas a Imbiribeira não é a vizinhança mais barulhenta porque a região da Lagoa do Araçá, mais calma e com emissões baixas, faz com que sua média desça”, explicou Ruskin.
Veículos são as fontes de ruído mais significativas. Carretas, como as que trafegam na Zona Oeste para fugir da má conservação da BR-101, por exemplo, emitem 90 dB com facilidade. “Às vezes, o motor nem é a origem principal. O atrito do pneu no asfalto e bocas de lobo mal colocadas são vilões piores”, contou a coautora da pesquisa, Jaucele Azerêdo. Por fim, mais raro, mas mais incômodos, estão os aparelhos de som automotivos. No ano passado, sons audíveis do lado de fora do carro se tornaram alvo de resolução do Conselho Nacional de Trânsito e uma multa de R$ 195,23 pode ser aplicada a quem cometer a infração.

Cruzando a Zona Oeste, uma dessas principais rotas alternativas para os caminhões, a avenida Recife, teve um pico de 95dB registrado durante a primeira pesquisa do Lacam. Isso porque, aliadas aos potentes motores terrestres, soam turbinas saídas da pista do Aeroporto Internacional do Recife. Também é um fator preponderante no volume do ruído a ausência de vegetação na área.

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