sábado, 11 de março de 2017

Uma luz que produz sonhos

Aline Moura
Diário de Pernambuco

Muito se fala em descobertas do futuro e aparelhos “mágicos” capazes de curar ferimentos e doenças em qualquer parte do corpo. Acredite: Caio Moreira Guimarães, 26 anos, fez a sua parte. Paulista de nascimento, pernambucano de coração há 13 anos, o engenheiro eletrônico está prestes a lançar um produto no mercado que vai reduzir os custos do chamado pé diabético, jargão médico usado para feridas de difícil cicatrização. O aparelho ajuda a controlar a inflamação, impede a proliferação de bactérias e reduz o tempo de cicatrização em quatro vezes. Com a inovação, que entrará em fase de testes clínicos no Hospital Agamenon Magalhães, na Estrada do Arraial, a esperança para os que buscam tratamento de feridas quase incuráveis, seja nos pés ou nas mãos, deve ser renovada. Se alguém ou uma unidade hospitalar gastava R$ 10 mil, por exemplo, para tratar uma úlcera aberta, o preço vai cair para R$ 2 mil.

O poeta e dramaturgo francês Edmond Rostand já dizia: “É à noite que é belo acreditar na luz”. É justamente com o uso da luz, em meio a tanto sofrimento, que Caio espera melhorar a qualidade de vida dos que padecem com úlceras em tecidos profundos, algo que pode levar à amputação de um membro. O jovem de riso fácil, com aspecto de um adolescente tímido, sempre sonhou em mudar o mundo. E está conseguindo. A luz utilizada por Caio nos tratamentos tem a cor azul. 

Quando a fase de testes estiver finalizada, no Agamenon Magalhães, o produto será levado para passar pelo crivo da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e ganhar o mercado. Ele está confiante de que os estudos clínicos no estado terminam em aproximadamente três meses. Já existem diversos hospitais em São Paulo interessados na compra do equipamento, bem como outros de Pernambuco. A data dos testes ainda não está cravada, mas quem precisa já pode se inscrever pelo e-mail contato@beonetec.com.

Agora, você deve estar se perguntando: como ele chegou a esta descoberta? A resposta é ampla: correndo riscos e enfrentando o desconhecido. A história de empreendedorismo de Caio começou quando ele tinha ainda 17 anos, no terceiro ano escolar. Batalhando para ganhar um dinheiro extra para manter sua independência, ele começou a dar aulas de reforço, num espaço perto da Livraria Jaqueira, na Zona Norte do Recife, e seu nome ficou conhecido. Com o passar do tempo, já matriculado na Universidade Federal de Pernambuco, teve que chamar mais três colegas para trabalhar com ele. Foi seu primeiro gesto de empreendedor. Uma iniciativa que rendeu ao estudante cerca de R$ 4 mil ao mês, na moeda de hoje, o que ajudou na renda total de sua família.

Em 2012, Caio se inscreveu no programa Ciências Sem Fronteira, patrocinado pelo governo federal, e foi selecionado para estudar em Nova York um ano depois. Foi preciso, antes de tudo, largar o que ele havia começado para apostar num novo sonho e convencer a mãe, Mariza Moreira, que contava com sua ajuda em casa. “Relaxa, mãe, as coisas vão mudar”, disse ele, para logo depois se matricular na Hofstra University. Escolheu um curso diferente do que fazia no Brasil, optando por engenharia biolétrica (que une medicina e engenharia).

No período de férias da universidade norte-americana, que dura quatro meses e acontece no verão, começou a elaborar currículos personalizados e mandar para cerca de dois mil professores de Harvard e Massachusetts Institute of Technology (MIT). Isso mesmo. Dois mil professores receberam o currículo personalizado de Caio Guimarães! Alguns ignoravam, outros mandavam resposta automática, além daqueles que serquer respondiam porque não integravam mais os quadros das universidades de Boston que ele admirava. “Harvard é o sonho de quem gosta de medicina. MIT é o sonho dos nerds”, disse ele. “Eu estudava a história de cada professor e fazia um currículo específico para cada cara. Era comendo e mandando e-mail para convencer um camarada a me aceitar”, contou.

Dos Estados Unidos ao Brasil 

A vida de Caio também se encaixa em trechos de poemas do biólogo e filósofo Jean Rostand, filho do poeta francês Edmond Rostand. O então estudante de engenharia não quis “aguardar até saber o bastante para agir com toda a luz”. Ouviu vários “nãos” e persistiu, até que Andy Yun, professor sul-coreano, físico e PHD que dava aulas em Harvard e na MIT, o chamou para um estágio. Segundo ele, o professor e a equipe estudavam o uso da luz, no espectro visível, na faixa acima de 400 nanômetros, para curar soldados que estavam no Iraque. O estudo visava usar frequências de luz para matar bactérias superresistentes e fechar feridas. Só que os estudos eram feitos numa mesa de dois metros de largura por dois de comprimento, muito grande para se adequar à vida dos soldados. 

Fazendo cálculos, Caio criou um aparelho portátil e pequeno (dá para segurar com as mãos) para apresentar ao professor. Como o tratamento de bactérias leva anos para ser aprovado, ele recebeu autorização para criar o aparelho para tratar o “pé diabético”, fazer testes e, depois, comercializar. O estudante ganhou um prêmio de inovação em Harvard e na MIT quando criou a “lanterna medicinal” portátil, com potência de erradicar infecções por bactérias resistentes a antibióticos. “A gente começou a desenvolver um negócio pensando nos soldados, mas têm pessoas no Sertão que precisam também”.

O estudante voltou para o Brasil, após a experiência de um ano nos EUA e persistiu com as pesquisas. Contratou três pessoas brilhantes para trabalhar com ele - Bruno Carvalho, Patrícia Moura e Luciana Rezende, todos biomédicos com especialialização - e patenteou a ideia. A empresa da qual Caio é CEO, a BeOne, está sendo acelerada pela Yunus Negócios Social e se localiza na Rua Jacó Velosino, no bairro de Casa Forte. Ele já foi eleito pela revista Forbes como um dos 30 jovens com menos de 30 anos mais influentes do país.

Financiamento engatilhado

O aparelho idealizado por Caio poderá evitar até 70 mil mortes no Brasil causadas pelo “pé diabético” no primeiro ano. A BeOne já levantou R$ 80,6 mil para financiar os estudos, que serão feitos com pacientes do SUS. A etapa seguinte é fechar com a Anvisa, realizar ensaios multicêntricos em São Paulo e entrar no mercado.

O visual do produto está sendo finalizado por um designer. O modelo de negócios, bem como a projeção de receitas, também está prestes a ser concluído. “Como diz o poeta, disciplina é liberdade”, diz Caio, lembrando um trecho da letra de Há tempos, de Renato Russo. Caio é filho da artesã Mariza Moreira e do economista Arthur Rucco Guimarães. Até os 13 anos, ele já tinha se mudado de casa e colégio umas 11 vezes porque o pai se transferia para um emprego melhor. Não é à toa que ele se considera um cidadão do mundo. Sua família não teve condições de ajudá-lo nos estudos em Nova York e Boston, mas não houve tempo ruim. Caio morou num sítio em São Paulo por dois anos e tem dias que dorme apenas quatro horas.

A Harvard não aceita alunos de intercâmbio, como o Ciências Sem Fronteira. Mas ele foi uma das exceções. O menino que escreveu dois mil e-mails para ser contratado criou um pequeno aparelho para usar uma luz mágica, daquele tipo que se vê em séries de TV e no cinema. O design, contudo, ainda não pode ser exibido. “Fizemos um teste num paciente que tinha perdido metade do pé. A amputação ficou aberta por dois anos e ele corria o risco de perder o restante do pé. A coloração do tecido já estava acinzentada. Começamos o tratamento e, em 13 semanas, a gente salvou ele de amputação. O diabetes é um problema sócioeconômico gravíssimo. Vamos mudar isso”, contou o engenheiro.

Nenhum comentário :

Postar um comentário