domingo, 30 de abril de 2017

Temer, fora dos cem dias de Trump

Clovis Rossi 
Folha de S.Paulo

Os cem primeiros dias da Presidência de Donald Trump contiveram mais tuítes do que ações efetivas: levantamento da agência AFP mostrou que, até a véspera do centésimo dia (que foi neste sábado, 29), haviam sido disparados 945 tuítes e apenas 29 ordens executivas –esse número foi a 30 com o decreto assinado na sexta-feira (28).

Bem feitas as contas, o balanço dos cem dias revela mais coisas que não foram feitas: a Justiça barrou os decretos que impunham restrições à imigração; não há dinheiro alocado para a construção do famigerado muro na fronteira com o México; não foi revogado o Obamacare, o plano de saúde tão vilipendiado durante a campanha; os Estados Unidos não saíram (ainda) do Nafta, o acordo de livre-comércio com México e Canadá, que o candidato Trump dizia ser "o pior acordo do mundo".

É natural, portanto, que Trump tenha apenas 43% de aprovação, quando o menor índice obtido por seus antecessores na história moderna era de 45% (Gerald Ford, o vice que assumiu após a renúncia de Richard Nixon).

Do meu ponto de vista, é bom, para o mundo e para os Estados Unidos, que pouco tenha de fato acontecido nesses primeiros cem dias. A ação mais forte, aliás, foi o bombardeio de uma base aérea na Síria –uma iniciativa unilateral que é sempre condenável.

Esse balanço até tornaria menos problemático o fato de que o Brasil de Michel Temer não entrou no radar de Trump.

No Itamaraty, até se festeja essa ausência, o que tem certa lógica: aliados tradicionais e firmes dos EUA, como, por exemplo, Alemanha e Austrália, não foram exatamente acariciados ao dialogar, ao vivo ou pelo telefone, com Trump.

Mas essa avaliação acomodatícia fica prejudicada pela visita do presidente argentino Mauricio Macri a Washington, na véspera dos cem dias. Segundo o relato do jornal "La Nación", Trump tratou Macri como "sócio" e até deu ordens para que fossem resolvidas as pendências dos EUA com a Argentina em torno da exportação de limões, biodiesel e carne.

Mais: teria pedido que Macri liderasse a pressão de seus pares na América Latina sobre a Venezuela. Aliás, é sintomático que Trump tenha usado para se referir à Venezuela ("um desastre") avaliação idêntica a que fez o linguista Noam Chomsky, que está no extremo oposto do leque ideológico.

Em entrevista à "Democracy Now", Chomsky afirmou que a situação na Venezuela "é realmente desastrosa". Pena que os aduladores de Chomsky na esquerda brasileira e latino-americana continuem sócios do grande fracasso que é a gestão Nicolás Maduro.

Volto a Trump e Macri. Não se trata de disputar com o mandatário argentino um papel de liderança, trata-se de entender que o Brasil deve estar na linha de frente no subcontinente e, por extensão, na relação com os Estados Unidos.

Pode-se amar ou odiar os Estados Unidos e seu presidente, mas não se pode ignorá-los ou ser por eles ignorado.

A gestão Lula, por exemplo, foi beneficiada pelos carinhos de George W. Bush e depois de Barack Obama. Temer, com bem mais de cem dias, ainda está à procura de uma agenda para entrar no radar de Washington.

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