domingo, 11 de junho de 2017

No Recife, Ciro Gomes pede para que povo "esquente" protestos

Ciro defendeu reindustrialização do Brasil
Luiz Pessoa/JC Imagem

Felipe Vieira
JC Online

Na noite deste sábado (10), o ex-governador do Ceará e presidenciável Ciro Gomes falou para uma plateia de estudantes na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Antes do evento, intitulado "Crise política: perspectivas de curto e longo prazo", ele conversou com a imprensa. A velha metralhadora giratória verbal mirou o presidente Michel Temer, o julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a atual composição do congresso. Ciro tem realizado um périplo por universidades, o que ele chama de "necessidade de formar uma corrente de opinião", e diz querer "unir o campo popular e progressista". Veja os principais momentos da entrevista.
JULGAMENTO NO TSE

Pareceu-me que estava escrito que esse resultado aconteceria. Eu pensei que seria 5 a 2, e o 4 a 3 acabou sendo bom por forçar o ministro Gilmar Mendes a se expor. Evidentemente sai daí uma repulsa popular que agrava muito a confiabilidade do judiciário e das instituições brasileiras. O lado bom disso é que talvez a população brasileira tenha mais um elemento para perceber que, se ela não se mobilizar, não for para a rua, não esquentar os protestos, o fundo do poço da tragédia brasileira será cada vez mais fundo a cada dia que passa. Luto por eleições diretas, embora seja muito cético com relação à possibilidade de que isso aconteça. Nós temos a pior composição majoritária do congresso que já vi em meus 38 anos de vida pública. Essa coalizão de fisiologia, clientelismo, corrupção e despudorada apropriação da institucionalidade republicana para uso próprio, isso eu nunca vi parecido.

VOLTA AO PSB?

Não há qualquer chance de voltar ao PSB. Estou muito feliz no PDT, será minha última experiência em um partido. Minha vida partidária é uma tragédia: para me manter minimamente respeitado e coerente eu acabei tendo que migrar para muitos partidos. Deixei muitos amigos no PSB, saí pela porta da frente. Foi uma disputa política que me fez sair. Não quero reproduzi-la, pois meu velho e querido amigo (Eduardo Campos) não está mais aqui entre nós para eventualmente me antagonizar. O que eu gostaria era de ajudar a unir o campo popular e progressista no Brasil. Farei o que estiver a meu alcance para que isso aconteça. Uma aliança com o PSB é desejável, mas acho muito difícil. Desde a tragédia da morte de Eduardo, o PSB não conseguiu se encontrar ainda. Eu falo isso fraternalmente. Inclusive tenho esperança de que esse movimento que está acontecendo possa trazê-los de volta àquilo que é sua melhor tradição. Mas imaginar um partido como o PSB ajudando um governo corrupto e golpista como o de Michel Temer é uma coisa chocante para mim. 

RODANDO O BRASIL

Estou debatendo em ambientes universitários como esse. Estou entregue à tarefa de formar uma corrente de opinião. Haverá hora de fazer o embate eleitoral. O Brasil precisa formatar um projeto novo. E esse projeto precisa de uma sofisticação que a política não fará mais. Tivemos dois centros hegemônicos que se alternaram por 20 e poucos anos, ambos replicando a mesma modelagem: com nuances mais sociais no PT e mais liberais no PSDB, mas rigorosamente o mesmo centro estratégico. Essa experiência quebrou o país.

PROJETO

O Brasil precisa acertar a ideia de projeto nacional de desenvolvimento. Cada uma dessas palavras tem um significado. Projeto: não vejo como qualquer nação do planeta possa crescer sem ter metas, objetivos, prazos, estratégias, avaliações e controle. Nacional: hoje o consumidor substitui o cidadão. E ele é induzido a acreditar que ser feliz é acessar um padrão de consumo visto pela internet ou televisão. O "bom, bonito e barato" é global, mas as condições para produzi-lo são nacionais. O Brasil está levando uma surra, pois os gravadores e câmeras que vocês (jornalistas) estão usando, as fibras do meu paletó, tudo é importado. Isso gerou um desequilíbrio estrutural nas contas do Brasil com o estrangeiro que gera uma eterna pressão de desvalorização da nossa moeda, que por sua vez projeta inflação, que por sua vez detona juros altos, que por sua vez detona falências e quebradeira e um colapso fiscal. É preciso saber quais são os protagonismos econômicos que serão germinados dentro desse projeto, além dos objetivos sociais. Por último, desenvolvimento: ao contrário do que a retórica fala, o Brasil não tem nenhum compromisso com crescer ou se desenvolver. Desde que nós amarramos a política econômica nessa trempe de câmbio flutuante, etc, nós não crescemos. É preciso tomar a decisão de crescer e administrar as tensões e riscos inerentes a esse processo. O caminho óbvio é interromper a desindustrialização e iniciar um pesado ciclo de reindustrialização. As pistas são os grandes buracos do País nas contas com o estrangeiro: petróleo e gás, defesa, agronegócio e saúde. É preciso imbricar a política social com a de desenvolvimento econômico e fazer disso uma coisa só. 

RECUPERAÇÃO ECONÔMICA?

É mentira. É um ajuste estatístico em função do PIB rural, que ganhou de volta preços internacionais, mas não como os de antes. Tivemos a bênção de uma estação climática favorável. O PIB rural cresceu 13,4% no semestre. No total, isso representa 1%. Os outros setores, inclusive, estão caindo, principalmente serviços e indústria. Não estamos combatendo a inflação, estamos matando a economia. 

LULA

Acho que Lula presta um grande desserviço ao País sendo candidato à Presidência em 2018. Se ele for, e ele tem todo direito de ser, tudo isso que estamos discutindo aqui será colocado de lado: será amor ou ódio a Lula. E o país vai se ferrar com isso. Minha raiva do Lula não é triplex, essas coisas. Foi ele ter colocado gente como Michel Temer na chapa de Dilma, ter dado Furnas a Eduardo Cunha. 

REPRESENTAÇÃO

O atual congresso é uma casa de Mãe Joana, para não dizer um puteiro...com todo respeito às putas. As atuais lideranças estão desmoralizadas. O PT se recusa a fazer uma autocrítica, prefere fazer o papel de vítima de perseguição política. O povo anda muito catatônico e quieto, e isso me angustia. É preciso esquentar os protestos, acossar deputados e senadores.

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