segunda-feira, 3 de julho de 2017

Ceticismo do eleitor perpetua a corrupção, aponta pesquisa

Paulo Veras
JC Online

A um ano da eleição em que os brasileiros poderão renovar um Congresso acossado por denúncias de corrupção, é pessimista a visão que a pesquisadora Nara Pavão, PhD em Ciência Política pela Universidade de Notre Dame (EUA), tem das eleições como ferramenta de punição. Para ela, os eleitores priorizam outras questões, como economia e políticas sociais, para escolher seus candidatos e têm tolerância à corrupção que aumenta a medida que ele acredita que todos os políticos são iguais. “É um círculo vicioso em que a corrupção gera corrupção”, explica Nara, que pesquisa a relação entre corrupção e voto.

O peso da solução de um sistema corrupto sobra para instituições de controle, como o Ministério Público e o Judiciário. “Esse efeito virtuoso do Judiciário só ocorre quando a atuação tem legitimidade. Isso é um problema, porque o Judiciário é percebido como sendo politizado. A gente só vai conseguir sair desse ciclo se o Judiciário estiver fazendo uma atuação imparcial”, enfatiza.

O trabalho de Nara mostra que o eleitor, bombardeado por casos de corrupção em vários partidos, vira um cético. Deixa de acreditar que há políticos honestos e, pior, de que é possível resolver o problema. O resultado é que, ao invés de punir nas urnas os parlamentares ou gestores que se metem em denúncias, o eleitor os perpetua, permitindo que sejam reeleitos.

O resultado é emblemático diante do cenário político brasileiro. Um presidente formalmente investigado, dezenas de congressistas denunciados, 42 políticos delatados pela Odebrecht e JBS. Como os julgamentos dificilmente ocorrerão antes das próximas eleições, o brasileiro pode permitir a seara de acusados manter o foro privilegiado que os afasta da Justiça.

COMO MUDAR?

Para a pesquisadora, que analisou casos de 80 democracias e a percepção da corrupção com eleitores do Brasil e dos Estados Unidos, há apenas duas possibilidades de ruptura desse ciclo. A primeira é o individuo conhecer casos de políticos honestos por parte da mídia, quebrando a ideia de ceticismo. A outra é atuação das instituições de controle. “Se os eleitores não são capazes de punir a corrupção nas urnas, talvez o Judiciário seja capaz de tirar os políticos corruptos do sistema”, explica.

Se isso não ocorrer, a perspectiva é que os corruptos sejam reeleitos. “Se as instituições não implementarem punições até as eleições e candidatos acusados concorrerem, eles têm chance de serem eleitos porque vão se beneficiar desse ceticismo. Se eles não puderem concorrer, o cenário fica muito favorável a outsiders”, projeta.

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