quinta-feira, 20 de julho de 2017

Milton: de gari a doutor em uma década


Milton Vinícius Morais de Lima
Foto: Paullo Allmeida

Tatiana Notaro
Folha de Pernambuco

Trinta e três anos recém-completados, uma graduação, duas pós (e uma terceira encaminhada), o recifense Milton veio a este mundo para desmerecer o lugar comum, para fugir de qualquer cruel normatividade subdesenvolvida. A Carteira de Trabalho com o registro de "gari caçamba" e o salário de pouco mais de R$ 400 viraram lembrança de uma época de pouca perspectiva, mas que o impulsionou a ser quem é. Olhava para os colegas – cinco, sete, 12 anos de empresa – e só conseguia pensar em não ser o mesmo. Foi estudar e, literalmente, não parou mais. Faculdade e especialização depois, nesta quinta (20), ele defende sua tese de mestrado no Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); em agosto, começa o doutorado na mesma instituição no qual passou com nota máxima. Aí poderá assinar doutor Milton Vinícius Morais de Lima.

Da casa no bairro do Jordão Alto, Zona Sul do Recife, Milton leva todos seus miltons consigo nessa história. O Milton-órfão, o Milton-gari, o Milton-andarilho, o Milton-milton. Nessa sequência, segue a história. Aos 20, perdeu a mãe, do coração: “Foi ali” e, quando voltou pra casa, recebeu a notícia. "O mundo podia acabar que eu já estava no lucro. Foi muita dor", diz, sobre aquele dia. Anos depois, morando em Rondônia, no Norte, desempregado, num aperto danado, chegou numa agência e a única coisa que lhe estenderam foi a tal vaga de gari. "Gari caçamba". Recolheu lixo, entulho, bicho morto, limpou esgoto. "O mais difícil era correr atrás do caminhão e os riscos do lixão. É ladrão, traficante, tudo o que você imaginar", lembra. Mas sabia que estava ali de passagem, juntou seis meses de salário, economizou o tanto que deu e somou seis meses de mensalidades. Deixou o emprego e entrou na faculdade.

Para chegar onde está, foi preciso andar muito, literalmente. Acontece que o dia que marcara o encontro com o futuro orientador, na UFPE, bateu com uma greve de ônibus na cidade. Deu um jeito, arrumou uma carona e levou para o professor uma ótima ideia, que tinha tudo pra passar. Mas Milton não tinha dinheiro, e a volta, atrás dos documentos para inscrição, foi um caminho a pé da UFPE, na Várzea, até o Derby, na região central. Deu um jeito. Nesta vida, minha gente, tudo tem um jeito, ele ensina. "Não tem governo de esquerda ou de direita. Existe a sua vontade de estudar", afirma, tranquilo.

Milton conta sua vida sem enaltecer qualquer de seus acontecimento. Não dá ares de sobrenatural às suas conquistas, não supervaloriza seus feitos acadêmicos, mesmo sabendo o quanto é raro que alguém como ele - pobre, negro, egresso do ensino público - chegue onde ele chegará. Estimulado a falar de si, ele só se apega ao esforço pelo resultado. Foi firme, não teve qualquer bolsa do governo, não reprovou uma disciplina sequer. Um maciço exemplo de alguém de foco, um dia de cada vez. Muitos ao seu redor seguiram a regra massacrante, mas ele fez as suas próprias. Não é um mero exemplo de superação; é resultado palpável de esforço.

O Milton que passou aperto, que almoçou farinha com açúcar, misturados numa caneca, aos 10 anos em Vitória de Santo Antão, na Zona da da Mata Sul de Pernambuco, já teria fim certo pela citada normatividade. Ele, não. Certo dia, foi chamado de “gênio” por um professor e refutou. “Eu não sou gênio. Só lembrei de Cafu (ex-jogador e ex-capitão da Seleção Brasileira de Futebol), quando o chamaram de craque. Ele respondeu que era um grande perna de pau reprovado em nove peneirões, mas que treinou e treinou”. Cafu fez-se craque; Milton será doutor.

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