domingo, 25 de dezembro de 2016

A ovelha perdida

Eliane tem três “ovelhas” para cuidar, seus filhos. Kléber, o caçula, cumpre o quinto ano de reclusão por tráfico de drogas. Ela não desiste

Paulo trigueiro
Folha-PE

“Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a alegremente nos ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e vizinhos e diz: 'Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida'. Eu digo que, da mesma forma, haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se.” Marcos 4:30-32

Eliane Portela, 60 anos, previu a “queda” do filho como se anoitecesse. Inevitável. Cria que o consumo constante de crack o levaria a uma cela ou - variação ainda mais preocupante - a um caixão. Apesar disso, “não faltou conselho”, como ela própria avalia. As conversas eram regulares, o ensino do ofício de artesão, também. Incansável, mobilizou os parcos contatos que tinha em busca de internação em uma instituição religiosa. Kléber cumpre hoje o quinto ano de sua segunda pena de reclusão, no presídio de Tacaimbó, no Agreste pernambucano. 

O homem de 33 anos é o caçula de três. Os dois mais velhos, Eliane considera estarem encaminhados por estarem casados e independentes financeiramente. “Nenhum dos meus 14 irmãos deu trabalho. Nem o meu Kléber dava, antes do crack. Trabalhava, com toda a habilidade para arte e trabalhos práticos que ele tem. Mas passou a andar com usuários por trás da estação do metrô de Jaboatão. E, um dia, chegou em casa irreconhecível. Eu não vi meu filho ali”, lembra. “Uma vez me ligou, ‘noiado’, dizendo que estavam tentando matá-lo. Era madrugada, mas fui andando do lote 56 até a estação do metrô. Trouxe para casa. Fui falar pessoalmente com o rapaz que o tinha jurado de morte e negociei com ele o pagamento das dívidas do meu Kléber.”

O menino tinha desgarrado. Das ovelhas que Eliane pastoreia, essa saíra do caminho e lhe exigiria mais esforço que as outras. As atenções, já voltadas para ele, tornaram-se exclusivas. De forma semelhante ao que é sugerido na parábola da ovelha perdida, cada uma delas tem valor. Cada uma é preciosa. “As pessoas argumentam que meu filho fez coisa errada e por isso não merece meu esforço. Mas ele não foi o primeiro, não abriu nem fechou o caminho. E ainda mais, ele é o meu filho e sempre vai ser. É talentoso, carinhoso e trabalhador”, reclama. 

O esforço para reencontrar a ovelha não é pouco. O almoço levado de Vila Rica, em Jaboatão dos Guararapes, na RMR, até Tacaimbó, é preparado com a experiência adquirida em décadas trabalhando como cozinheira em um hotel. Eliane rala as cebolas, doura na manteiga, refoga o pimentão. “No fim, o macarrão ao molho de tomate fica do jeito que ele gosta”, assevera. “Até três meses, ele ficava aqui perto, no Aníbal Bruno. Agora, lá no Agreste, eu não consigo vê-lo em todas os dias de visitas. Foi horrível a mudança para mim. Por outro lado, Tacaimbó é como um hotel. Não tem crack, armas, superlotação, como nos outros lugares. Não é mais um inferno pensar que ele está preso. Agora, só tem maconha. Ele me conta tudo. Acho que isso pode ajudá-lo a melhorar.”

Boa parte dos R$ 350 quinzenais que ela recebe trabalhando como faxineira é voltada para ele. “Vou esticando o meu dinheiro como se fosse um chiclete, sabe? Só para me locomover até Tacaimbó, gasto R$ 80. Por isso, não dá para ir todos os dias de visita. Mas ainda levo lençóis, meias, rolos de papel higiênico, cigarros. E ele não tem luxo, não precisa ser uma carteira de hollywood, não”, exemplifica. 
Para manter as contas em dia, a alternativa encontrada por Eliane foi voltar a trabalhar com artesanato. Cria, à sombra parcial de uma máquina de costura antiquíssima, pesos de porta criativos que custam entre R$ 10 a R$ 30. Pela qualidade do produto, a demanda só cresce. Inicia, então o dia de trabalho às 6h50 na residência onde trabalha, volta às 15h e parte para a costura. Às vezes, até a meia-noite. O importante é dar conta de atender aos clientes.

Controlando o pedal da máquina de costura, Eliane sonha com a presença de Kléber ao seu lado, trabalhando com o artesanato. “Na verdade, sinto ele do meu lado sempre que estou aqui”, revela. A esperança tem fundamento. O rapaz faz artesanato com palitos, com madeira e até esculturas em palha de aço. “Ele é habilidoso e prático. Conseguiu trabalhar com energia elétrica só de observar o pessoal no presídio fazendo. É considerado o melhor costurador de bolas de couro. O instrutor me procurou para dizer isso num dia de visitas.”

O sonho de Eliane reflete o que, na Bíblia, Jesus enfatiza ao contar a parábola. A felicidade de encontrar a ovelha perdida é, sem dúvidas, a mais forte. Pois, escreve-se no livro, que há mais alegria por um pecador que se arrepende que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se. “Ele se arrependeu de errar. Sempre me diz. Eu acredito. O problema é o crack cruzar o caminho dele de novo. Não sei o que pode acontecer. Se não, vai estar aqui ao meu lado por muito tempo."

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