quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Temer decidiu deixar a ética em segundo plano

Josias de Souza

Durante café da manhã que mandou servir aos jornalistas nesta quinta-feira, Michel Temer informou que não pretente demitir auxiliares mencionados em delações da Odebrecht. Foi especialmente enfático em relação ao caso do amigo Eliseu Padilha. “Não tirarei o chefe da Casa Civil, não. Ele continua firme o forte.” Com essas palavras, o substituto constitucional de Dilma Rousseff, alçado à poltrona de presidente em meio ao mais retumbante movimento anticorrupção da história do país, informa que decidiu governar deixando a ética em segundo plano. Lamentável.

O presidente queixou-se dos vazamentos que despejam nas manchetes as revelações de delatores. “Soltam uma delação por semana e criam um clima de instabilidade.” Bobagem. O que eletrifica a conjuntura não é a radiografia, mas o câncer que ela revela.

Temer declarou que os delatados não podem ser tratados como se estivessem “definitivamente condenados.” Tudo vai virar inquérito, ele realçou. E “quem foi mencionado vai se defender.” Verdade. Ninguém ousaria pregar a extinção do sacrossanto direito de defesa. O que não se admite é que suspeitos de crimes permaneçam nos cargos como se nada tivesse sido descoberto sobre eles.

Se não quiser demitir os amigos, Temer pode adotar uma solução à moda de Itamar Franco, que ordenou ao então chefe da Casa Civil Henrique Hargreaves que se licenciasse do cargo assim que foi alvejado por denúncias de corrupção. Fora do governo, Hargreaves livrou-se das acusações. E retornou à antiga função.

Há um quê de autodefesa na decisão de Temer. O presidente já perdeu o coordenador político Geddel Vieira Lima, pilhado defendendo interesses particulares em seara pública. Se afastar Padilha e o secretário-executivo Moreira Franco, os dois amigos abalroados pela Odebrecht, Temer perde seus anteparos, tornando-se uma espécie de alvo solitário.

Sem os seus biombos, Temer não falaria mais sobre as denúncias contra Padilha e Moreira, mas sobre os R$ 10 milhões que um delator diz que ele próprio solicitou a Marcelo Odebrecht, no Palácio do Jaburu. Ou sobre a verba de campanha que outro delator diz ter sido acertada no escritório paulista de Temer, com intermediação de Eduardo Cunha.

Embora diga não se importar com a popularidade, Temer se esforça para reverter a crise econômica que o faz impopular. No café com os jornalistas, anunciou medidas populares. Coisas como a liberação do saldo das contas inativas do FGTS e a promessa de redução dos juros do cartão de crédito. Beleza. Mas a crise moral não será revertida com paliativos econômicos. A história recente demonstra que o destino foi implacável com governantes que administraram de costas para a ética. Lula, por exemplo, já é réu em cinco ações penais.

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