terça-feira, 1 de agosto de 2017

Ainda é possível Confiar?

Observatório Social do Brasil - OSB

As seguidas denúncias de corrupção envolvendo políticos e gestores e a consequente crise política e econômica instalada no país trouxeram à tona o sentimento de descrença, quase que generalizada, dos brasileiros em seus agentes. A Associação Nacional do Funcionários do Banco do Brasil (ANABB) conversou com especialistas para entender mais sobre o atual cenário, o cerne da corrupção presente em práticas cotidianas, a importância do voto e da cobrança do cidadão e a perspectiva para o futuro.

O mundo atravessa uma crise de confiança nas instituições: empresas, governos, ONGs e mídia. É o que revela o estudo Edelman Trust Barometer 2017, realizado em 28 países com mais de 33 mil entrevistados. Na pesquisa, o Brasil está entre uma das nações em que a população menos acredita no setor público (24%) e tem a corrupção como seu maior temor (87%).

Outro levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), em parceria com o Datafolha, revelou que 90% dos jovens de 14 a 24 anos consideram a sociedade brasileira pouco ou nada ética. Diante dessa crise de confiança que atinge o mundo, em especial o Brasil, a ANABB mergulhou no assunto e consultou especialistas para entender mais sobre esse cenário de desconfiança, o cerne da corrupção cotidiana e os caminhos para sair desse quadro.

Para o cientista político Valdir Pucci, a descrença do brasileiro em relação à política não é uma surpresa e aponta que a falta de entendimento dos políticos sobre os interesses da sociedade e a liberdade de imprensa são dois fatores que colaboram para o aumento da desconfiança da população. “Os políticos têm dificuldade de entender que a sociedade já não tolera práticas que antes eram até comuns e aceitáveis, como o patrimonialismo. Pode-se falar que a sociedade brasileira evoluiu em vários aspectos, porém a classe política permaneceu estagnada. Graças à liberdade de imprensa e de informação, cada vez mais o brasileiro tem descoberto como os políticos se comportam não apenas pelos meios tradicionais de comunicação, mas também pelas mídias sociais”, destaca Pucci.

É fato que a corrupção no Brasil nunca esteve tão exposta como nos últimos anos. A cada dia, um novo escândalo é revelado e as mídias sociais e as ferramentas tecnológicas têm-se tornado grandes aliadas na denúncia dos atos de corrupção. Hoje, qualquer descuido está sob o alcance das câmeras de celular e pode viralizar nas redes sociais.

“Vejo de maneira positiva essa capacidade da sociedade de ‘produzir’ seu conteúdo. Mas é importante destacar que isso ainda não é entendido pela classe política tradicional do Brasil. Muitos políticos ainda acreditam viver em um país de total impunidade, em que eles podem fazer tudo sem a necessidade de prestar contas à sociedade. Esse é o fosso que existe entre a classe política e a população. Por exemplo, mesmo com investigações em curso, muitos políticos continuam a fazer o mesmo que faziam antes. Isso é uma visão distorcida que eles possuem do Brasil de hoje”, analisa Valdir Pucci.

O especialista acredita ainda que a atual crise política pode ser um divisor de águas para a sociedade brasileira, assim como o momento é propício para uma inflexão da Nação. “Ou sairemos um país mais institucionalizado em boas práticas políticas ou então não teremos outra chance tão boa quanto essa para revisar o Brasil que queremos. A médio e longo prazo, acredito que o resultado final será positivo ao país. A curto prazo, acredito que a crise tende a continuar”, diz Pucci.

A CORRUPÇÃO E O OUTRO

A corrupção pode estar embutida na população já de tempos longínquos, com ações que desencadearam uma cultura de desmandos desde a época do Império até os dias de hoje. Entretanto, embora o “jeitinho brasileiro” dê impressão de que o problema no Brasil é cultural, trata-se na verdade de corrupção – falta de controle, de prestação de contas, de punição e de cumprimento das leis.

Valdir Pucci define a corrupção como o ato de levar vantagem em algo de forma desonesta, agindo de maneira contrária às leis e à moral da sociedade. “Corrupção é qualquer ato contrário à coletividade. A corrupção não se faz por valor, mas por ato. Roubar R$ 1 milhão da saúde é um ato tão corrupto quanto oferecer uma cervejinha para o guarda não multar seu carro que está com os documentos vencidos”, enfatiza.

Em algum momento da vida, qualquer pessoa pode ter-se envolvido com práticas corruptas. Dados da pesquisa do Instituto ETCO revelam como atitudes corriqueiras de corrupção tornam-se presentes no cotidiano e pouco incomodam a população. De acordo com a pesquisa, 63% dos jovens entrevistados afirmam que buscam ser éticos na maioria das vezes em seu dia a dia. No entanto, 52% compram produtos piratas por serem mais baratos, com a justificativa de não acreditar fazer mal a alguém, enquanto 36% avaliam que, para ganhar dinheiro, nem sempre é possível ser ético.

“É verdade que jovens compram produtos pirateados em razão do preço, mas é importante notar que a pesquisa mostra que 72% sabem que deixar de comprá-los tornaria o Brasil mais ético. Então, são atitudes enraizadas, são falhas que cometemos no automático, não estamos pensando nelas ao praticá-las. Deixamos de atravessar a pista na faixa, falamos ao telefone enquanto dirigimos, mesmo sabendo que a lei nos proíbe de fazer isso. São pequenos atos ilegais que fazemos no automático”, exemplifica o presidente-executivo do ETCO, Edson Vismona.

Vismona enfatiza ainda que é preciso que a sociedade assuma seus erros e suas responsabilidades perante a Nação para que haja transformação. “Precisamos transformar isso em uma reflexão pessoal. O erro está sempre no outro, mas, para o outro, eu sou o outro. Então, precisamos refletir sobre nossas atitudes diárias em nossas famílias, na criação de nossos filhos e, acima disso, precisamos mostrar bons exemplos, fazer o bem, ser pessoas honestas, pois elas são a maioria, motivando nossos jovens a assumir uma postura ética cada vez mais firme”, reflete.

EDSON LUIZ VISMONA é advogado, presidente do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), do Fórum Nacional contra a Pirataria e Ilegalidade e da Associação Brasileira de Ouvidores/Ombudsman, foi secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo (2000-2002) e secretário nacional da Reforma Agrária do Ministério do Desenvolvimento Agrário (2002).

COMO MUDAR?

Estudiosos e especialistas são unânimes em afirmar que é possível mudar este cenário do país, desde que a sociedade reconheça suas responsabilidades com atitudes e como voto consciente. Além disso, é preciso realizar mudanças na política e nas instituições.

O cientista político e autor do livro Pare de acreditar no governo: por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado , Bruno Garschagen, relata que existem diversas soluções para o fim da corrupção e que estas se aplicam em áreas distintas e envolvem muitos personagens e instituições. “As soluções são muitas e exigem a descentralização de respostas e organizações. Primeiro, temos de abandonar essa utopia segundo a qual o Estado, representado pelo governo, deve ser responsável por tantas áreas e que também é capaz de resolver todos os problemas de forma eficiente e barata. Depois, temos de assumir a responsabilidade que nos cabe na vida em comunidade. Se sua calçada está suja, limpe-a, não fique esperando que a prefeitura mande alguém limpá-la. Terceirizar responsabilidades é um hábito perverso que cultivamos. Se não assumirmos o dever que nos cabe e, ao mesmo tempo, tivermos a certeza de que somos uma Nação de credores para quem o Estado é devedor, o resultado é desastroso e dá origem à nossa cultura da reclamação estéril”, diz Garschagen.

Para Valdir Pucci, o Brasil precisa de uma reforma política e o voto sempre terá o poder de transformação. “O voto é o melhor caminho para o cidadão dizer à classe política o que deseja. Podemos não acreditar, mas se existe algo que assusta o político corrupto é o voto consciente. Só ele é capaz de mudar uma sociedade e seu futuro. Entretanto, é necessário um alerta: a democracia é um sistema que demora a mudar uma sociedade. Ditaduras podem impor sua vontade e até mudar uma sociedade pelo uso da força. A diferença é que mudanças democráticas são reais e duradouras. Só se é capaz de evoluir positivamente em uma democracia”, finaliza o cientista político.

VALDIR PUCCI Mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília (2001). Doutorando em Direito Constitucional pelo Centro Universitário de Brasília (UNICEUB) na linha de pesquisa em políticas públicas, constituição e organização do Estado. Possui graduação em Ciência Política pela Universidade de Brasília (1998) e em Direito pelo Centro Universitário Euro-Americano (2009).

Os dois estudiosos também afirmam que de nada adianta o poder do voto, se não tivermos boas opções de candidatos. “Não podemos, jamais, por ação ou omissão, permitir que a política seja o ambiente constituído pelos piores que temos na sociedade. Se a sociedade não criar condições para formação de uma elite política virtuosa, votar será um mero ato de escolha entre os menos virtuosos e incapazes”, completa Bruno Garschagen.

BRUNO GARSCHAGEN é autor do best-seller Pare de Acreditar no Governo – Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado (Editora Record, 2015, 8ª edição). É professor de Ciência Política, tradutor, colunista do jornal Gazeta do Povo, podcaster do Instituto Mises Brasil e foi colaborador do site do jornal Extra.

ANABB E O VOLUNTARIADO CONTRA A CORRUPÇÃO

Se aqueles que deveriam ser exemplos de retidão não fazem seu papel, uma rede de articulação da sociedade civil, por sinal a maior do país, tem feito a diferença e conquistado destaque no combate à corrupção: o Observatório Social do Brasil (OSB). O trabalho dos integrantes dessa rede em favor da transparência e da qualidade na aplicação dos recursos públicos já alcançou a economia de aproximadamente R$ 1,5 bilhão para os cofres municipais desde 2013. Anual- mente, mais de R$ 300 milhões de recursos públicos deixam de ser gastos desnecessariamente.

Os Observatórios Sociais estão presentes em mais de 120 cidades e municípios, espalhados em 18 estados brasileiros e no Distrito Federal. A síntese do trabalho voluntário de empresários, profissionais, professores, estudantes e funcionários públicos, que já atingiu a marca de 3 mil pessoas, consiste no monitoramento das compras públicas nos municípios, evitando gastos desnecessários e cobrando providências na identificação de irregularidades. Somente para exemplificar a importância do trabalho dos voluntários, a atuação da rede OSB possibilita a recuperação de, em média, 10% a 15% dos orçamentos em compras dos municípios. Além disso, nos últimos quatro anos, houve aumento expressivo da média das empresas que participam de licitações públicas, evitando, dessa maneira, muitos acordos de preços e divisão de lotes.

Para o vice-presidente de Comunicação da ANABB e conselheiro consultivo do OSB, Douglas Scortegagna, a atuação dos voluntários nos OS representa grande destaque nacional e um exemplo a ser seguido em meio à descrença da população brasileira em seus líderes. “No quadro atual que estamos vivendo de total desconfiança das pessoas nos agentes públicos, o trabalho dos voluntários surge como um ponto positivo e um exemplo a ser copiado por diversos segmentos da sociedade em prol da justiça social”.

A ANABB apoia a iniciativa dos Observatórios desde 2013 e, recentemente, renovou o convênio de cooperação financeira com as cinco unidades dos OS que auxilia: Campo Grande (MS), Santo Antônio de Jesus (BA), Campos Gerais – Ponta Grossa (PR), Pelotas e Erechim (RS). A ajuda a esses cinco OS foi aprovada pela Diretoria Executiva da ANABB com base nos recursos orçamentários disponíveis.

O presidente da ANABB, Reinaldo Fujimoto, resumiu a importância do trabalho dos voluntários da rede OSB e do apoio da Associação na causa. “A atuação dos milhares de voluntários que doam seu tempo para combater práticas escusas e de corrupção, na fiscalização e na melhor aplicação dos recursos públicos, é algo que merece aplausos e total apoio da ANABB na iniciativa social. Talvez seja esse um caminho para o resgate da confiança nas instituições e, principalmente, da esperança dos brasileiros em dias melhores”, destacou o dirigente.

Artigo por Por Elder Ferreira e Josiane Borges para a o Jornal Ação, publicação da Anabb, edição 245, de julho a agosto de 2017

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